Histórias de pacientes revelam como o sistema público garante acesso universal, do transplante ao tratamento de doenças raras.
Isabella França – 19/09/2025
O Sistema Único de Saúde (SUS) completa 35 anos nesta sexta-feira (19/9). Criado pela Constituição de 1988, ele mudou a vida de milhões de brasileiros ao garantir acesso gratuito, universal e integral à saúde. Há inegáveis filas e atraso no atendimento, mas o sistema cuida do brasileiro do nascimento até a morte, da vacina ao transplante, do curativo simples ao medicamento de alto custo.
Na data simbólica, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, resume a dimensão do sistema: “O SUS é a maior conquista social do Brasil.” O sistema representa a esperança e o cuidado com a vida em todas as regiões do nosso país, para todas as pessoas, em todas as fases da vida. “Com o SUS, o Brasil vive mais.”
Ao longo desta reportagem, três histórias — Jair, Ilza e Ademir — mostram, na prática, como a rede pública salva vidas e devolve dignidade à população. A atenção dos profissionais de saúde que os acompanharam mostram por que o SUS é, antes de tudo, um projeto de país.
Ilza Viana: 15 dias entre o diagnóstico e o transplante

Aos 39 anos, a professora Ilza Viana, de Francisco Morato (SP), começou a se sentir diferente: indisposição insistente, olhos amarelados, náuseas e hematomas espontâneos. Ela buscou ajuda em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, de lá, foi encaminhada à Unidade Básica de Saúde (UBS) para exames específicos.
“No outro dia, voltei à UPA para pegar o resultado. Pela gravidade, me internaram ali mesmo, que nem é lugar de internação. Eu estava em crise hepática aguda e fiquei sete dias hospitalizada”, conta.
Em 7 de maio de 2024, surgiu uma vaga no Hospital São Paulo (Unifesp), referência pública entre os melhores do mundo. “Cheguei e fui para a UTI. Para a minha surpresa, meu nome já estava na lista de prioridade de transplante do SUS.” Me disseram que eu poderia ter hepatite fulminante a qualquer momento. Pela gravidade, “qualquer fígado que aparecesse no país seria meu, graças à lista do SUS”, lembra.
Apenas 15 dias após o diagnóstico, ela recebeu o órgão que salvou sua vida. O acompanhamento pelo SUS segue a cada dois meses, com avaliação clínica, exames e ajuste de medicamentos.
“Se não fosse o SUS, a doação de órgãos e os profissionais da UPA, UBS e hospital, não sei o que seria de mim”, afirma.
O gastroenterologista Edson Arakaki explica a urgência. “No Brasil, a lista de transplante de fígado é única, pública e transparente, gerida pelo SUS por meio do Sistema Nacional de Transplantes.” A gravidade define a prioridade, sobretudo pelo escore MELD. Com MELD 40 — o valor máximo, que indica risco iminente de morte — “a Ilza estava no topo da fila.”

Entre diagnóstico, internação e transplante, Ilza esperou apenas 15 dias
Ademir Regis: do banco da praça ao recomeço da vida
A família se desfez, o trabalho sumiu e o que restou foi dormir na rua. Sem casa, banho, roupa limpa e dormindo na rua, Ademir Regis, de Rio Verde (GO), bebia para tentar esquecer. Enquanto isso, a hérnia na barriga crescia, a dor aumentava e a esperança diminuía. Foi quando o SUS, literalmente, foi até ele.
“Eu estava sentado no banco da praça, sujo, sem me reconhecer. Chegou uma moça e perguntou se eu queria ajuda, se queria mudar de vida. Aceitei na hora, já tinha quase perdido a esperança”, lembra.
A equipe do Consultório na Rua, serviço do SUS coordenado pela Atenção Primária, entrou em ação. Sem documentos, em situação de vulnerabilidade e com uma hérnia visível, Ademir foi acolhido, encaminhado para exames e cirurgia, e acompanhado passo a passo para não perder consultas
“A gente procurava ele à noite, avisava: ‘Não pode beber hoje, amanhã tem exame’. Conhecíamos os lugares onde ele ficava. Foi uma parceria da rede toda”, relata a assistente social Aline da Mata.
O tratamento aconteceu com sucesso: Ademir passou pela cirurgia que tanto precisava e, com suporte multiprofissional, superou o alcoolismo. O auxílio da rede de saúde foi o que faltava para que ele refizesse a vida. Hoje, Ademir tem casa e outra rotina. “Foi um recomeço. O SUS me salvou”, diz


Para Aline, o princípio é a dignidade: “O SUS garante que ninguém seja invisível”. Trabalhar no Consultório na Rua é humanização em cada escuta e cuidado. A saúde é um direito, independente das escolhas de vida ou do status social.”
Jair Beto: quando o remédio certo muda tudo
A psoríase tomou o corpo inteiro de Jair Beto, de Belo Horizonte (MG). Coceira constante, pele descamando, cascas brancas por todo o corpo e o couro cabeludo. O sofrimento era diário.
A doença de pele é até comum mas, em casos graves, o paciente acaba preso dentro de casa — é muito difícil ter uma condição visível para qualquer pessoa. Os olhares de julgamento se somam às dores, e o estresse piora ainda mais o quadro.
A dermatologista Ana Cândida, médica aposentada pelo SUS e especialista em dermatologia clínica, explica que a psoríase é uma doença inflamatória crônica que pode afetar pele e articulações e se relaciona à obesidade, distúrbios metabólicos, alterações oculares e sintomas psíquicos. “Sem tratamento, produz coceira intensa, estigmas sociais e pode evoluir para deformidades e incapacidades articulares”, ensina.
As terapias modernas atuam de forma direcionada na inflamação e podem custar até R$ 15 mil, um valor inalcançável para a maioria das famílias.
“Eu não ia ter condição de comprar o remédio”, conta Jair. “Era uma situação muito ruim, só quem tem sabe. Graças à Deus, o SUS liberou o medicamento: analisaram meu caso e viram que era grave demais“, lembra.
Hoje, o tratamento do mineiro é feito 100% pelo SUS. Com acompanhamento próximo e medicação correta, e a psoríase desapareceu por completo. “O SUS resolveu. Só tenho a agradecer”, diz.
O SUS é de todos e para todos
As histórias de Jair, Ilza e Ademir mostram o que o SUS tem de mais essencial: é um pacto público que se realiza no encontro entre gente que precisa e gente que cuida. Do remédio que devolve a pele e a autoestima ao órgão que chega na hora certa, passando pela equipe que procura, acolhe e acompanha quem vive nas ruas.
Aos 35 anos, o SUS segue sendo construção diária, feita por pessoas reais, que compõem o time de profissionais, gestores e usuários. E segue sendo patrimônio do Brasil — universal, gratuito e integral — para quem depende exclusivamente dele e para quem, mesmo tendo plano de saúde, também conta com seus serviços.
Matéria retirada do portal metropoles, confira em: https://www.metropoles.com/saude/sus-pacientes-salvos-pelo-sistema-de-saude



